Como Ser um Conservador, de Scruton: resenha e nota
Análise editorial de Como Ser um Conservador, de Roger Scruton: a defesa do conservadorismo como disposição, a edição da Record, as críticas à obra e a nota.
Análise editorial da obra, da ficha da edição e de fontes públicas
Resumo em 30 segundos
- 01Como Ser um Conservador, do filósofo britânico Roger Scruton, defende o conservadorismo como uma disposição de preservar o que se herdou e se ama, e não como um programa fechado de governo.
- 02A edição brasileira é da Record, publicada em 15 de julho de 2015, com 294 páginas e ISBN-13 9788501103710, segundo a ficha da Open Library.
- 03A nota 7,6 premia a clareza e a leitura agradável e desconta o rigor: o livro argumenta mais do que demonstra e deixa de fora quem discorda dos seus pressupostos.
Neste artigo
Poucos livros de ideias políticas publicados em português na última década tentaram responder a uma pergunta tão simples quanto Como Ser um Conservador: o que, afinal, quer dizer ser conservador? O autor é o filósofo inglês Roger Scruton, e a resposta que ele dá é menos partidária do que o título sugere. Esta é uma análise editorial da obra, feita a partir da ficha da edição brasileira, de registros públicos sobre o autor e de resenhas e fontes citadas no texto.
Veredito da redação
É um ensaio bem escrito que apresenta o conservadorismo como uma atitude de gratidão e de cuidado com o que recebemos de gerações anteriores. O ponto forte é a clareza de quem domina o assunto e escreve para o leitor comum. O ponto fraco é o rigor: o livro defende uma tese com elegância, mas raramente a submete a dados ou ao confronto direto com os argumentos contrários.
A nota final é 7,6 em 10. A pontuação avalia a qualidade da obra (clareza, profundidade, rigor, atualidade e leitura) e não a concordância do leitor ou da redação com o autor. As críticas feitas ao livro estão listadas mais abaixo, para que cada um forme o próprio juízo.
De que trata e qual é a tese central
A tese que atravessa o livro é a de que o conservadorismo nasce de um sentimento antes de virar doutrina: o apego ao que é familiar, ao lugar onde se vive, às instituições que sustentam a vida em comum. Para o autor, quem é conservador deseja preservar aquilo que considera valioso e que levou muito tempo para ser construído, como a família, a comunidade, as leis e os costumes, porque destruir é rápido e reconstruir raramente é possível.
Daí decorre uma desconfiança de projetos que prometem refazer a sociedade a partir de um plano abstrato. Scruton se coloca na linhagem de Edmund Burke, que criticou a Revolução Francesa por tratar a sociedade como uma máquina a ser redesenhada. A ideia central é que as instituições carregam um conhecimento acumulado que nenhum planejador isolado consegue reunir, argumento que também aparece no liberalismo de Hayek.
O livro também separa o conservadorismo de outras tradições com as quais costuma ser confundido. Distingue-o do liberalismo econômico puro, que tende a tratar a sociedade como soma de contratos entre indivíduos, e do libertarianismo, que reduz o papel das instituições compartilhadas. Aqui o autor defende que a liberdade só floresce dentro de um quadro de leis, hábitos e lealdades que o mercado, sozinho, não produz.
Sobre o autor
Roger Scruton nasceu em 27 de fevereiro de 1944, em Buslingthorpe, Lincolnshire, na Inglaterra, e morreu em 12 de janeiro de 2020, em Londres, aos 75 anos. De acordo com o verbete da Wikipedia, foi professor de estética no Birkbeck College, em Londres, entre 1971 e 1992, depois professor de filosofia na Universidade de Boston, e fundou e editou a revista The Salisbury Review entre 1982 e 2001. Foi nomeado cavaleiro em 2016, por serviços à filosofia, ao ensino e à educação pública.
O mesmo verbete registra um capítulo menos conhecido: entre 1979 e 1989 ele apoiou dissidentes da Tchecoslováquia comunista, ligando professores perseguidos a universidades ocidentais e ajudando a manter uma rede de ensino clandestina. Foi detido em Brno em 1985 e expulso do país. Esse histórico ajuda a entender por que o autor trata a defesa das instituições livres como questão prática, e não apenas teórica.
Scruton também foi figura controvertida. A mesma fonte lembra que ele perdeu colunas em jornais em 2002, depois de reportagem do Guardian sobre pagamentos de uma empresa de tabaco não declarados, e que em 2019 foi demitido, e dias depois reconduzido, a uma comissão do governo britânico sobre arquitetura, após uma entrevista que gerou protestos. Esses episódios não alteram a avaliação do livro, mas ajudam o leitor a saber quem escreve.
O que o livro faz bem
Clareza e estilo. Scruton escreve como quem conversa com um leitor inteligente e sem formação em filosofia. As frases são limpas, os exemplos vêm da vida cotidiana e da cultura, e o argumento avança sem jargão. Para quem tem receio de livros de teoria política, é um dos pontos de entrada mais amigáveis ao tema.
Conservadorismo como disposição. O livro tem o mérito de tratar o conservadorismo como uma maneira de se relacionar com o mundo, e não apenas como lista de posições sobre economia ou costumes. Isso permite ao leitor perceber que há conservadores de várias tendências e que o debate vai além de rótulos de partido. Também o torna útil para quem pretende discutir política sem reduzi-la à disputa eleitoral.
Panorama das correntes. Ao contrastar conservadores, liberais, socialistas e libertários, o autor oferece um mapa das principais famílias de ideias políticas modernas. Mesmo quem discorda das conclusões sai com vocabulário para identificar o que cada corrente defende e por quê. Para completar o mapa, vale ler também Tocqueville, que analisou a democracia sem partidarismo.
Limites e críticas feitas à obra
A primeira crítica é de método. O livro é um ensaio: afirma, ilustra e conclui, mas raramente apresenta dados, estudos comparados ou notas que permitam verificar o que diz. Quando afirma que as instituições herdadas guardam sabedoria acumulada, por exemplo, o leitor recebe uma tese plausível, mas não a evidência de que ela vale em todos os casos. Há instituições antigas que perpetuaram injustiças, e a tradição não distingue por si só o que merece ser preservado.
A segunda crítica diz respeito aos adversários. Leitores de outras correntes costumam apontar que o livro resume as posições contrárias de modo breve e pelo seu pior ângulo, em vez de enfrentá-las nas versões mais fortes. Essa é uma limitação comum a ensaios de combate intelectual, em qualquer campo, mas pesa em um livro que se propõe a explicar uma tradição a quem não a conhece.
A terceira ressalva é geográfica. O autor escreve a partir da experiência britânica e da história intelectual da Europa e dos Estados Unidos. O Brasil tem outra formação: uma sociedade jovem, com Estado forte e desigualdades profundas, em que o apego ao passado significa coisas distintas para grupos distintos. Obras como Raízes do Brasil e Os Donos do Poder ajudam a fazer essa ponte, e o leitor brasileiro precisará fazê-la sozinho em vários trechos.
Por fim, a figura do autor divide opiniões. Seus defensores o veem como um dos filósofos conservadores mais lidos do século 21; seus críticos citam declarações polêmicas que fez ao longo da vida, algumas das quais ele próprio revisou. A resenha registra a controvérsia, mas julga o livro pelo que está nas páginas.
A quem serve e a quem não serve
O livro serve a estudantes de direito, ciência política e filosofia, a jornalistas, a eleitores curiosos e a leitores de qualquer campo que queiram conhecer a defesa mais articulada do conservadorismo em linguagem acessível. Também é bom ponto de partida para quem pretende ler depois análises sobre instituições e democracia, para comparar enfoques.
Não serve a quem busca um manual de política pública, um programa de governo ou dados sobre desempenho de países. Também não é a melhor escolha para quem quer uma história do pensamento conservador, tarefa mais bem cumprida por obras de referência. O que o livro oferece é uma exposição de atitude e de argumento, e é assim que deve ser lido.
Edição indicada e preço
A edição indicada é a da Record, com ISBN-13 978-85-01-10371-0, 294 páginas e data de publicação de 15 de julho de 2015, conforme a ficha da Open Library. O nome do tradutor não consta nessa ficha e não foi verificado. A página da Amazon Brasil não abriu para conferência em 17/10/2026, por isso o botão usa a busca por ISBN-13 e o preço não foi verificado; confira o valor atual na loja. A compra pelo link gera comissão para o site, sem custo extra ao leitor.
Livros para ler depois
Quem quiser ir à fonte da tradição pode seguir para Reflexões sobre a Revolução na França, de Burke. Para o lado econômico do debate, há As Seis Lições, de Mises, e Pare de Acreditar no Governo, de Bruno Garschagen. Todas as análises estão na lista de resenhas, e o noticiário sobre o debate político está em Notícias.
Nota final e critérios
A nota é a média simples de cinco critérios, aplicados com a mesma régua a livros de todos os campos. Clareza, 9,0: texto limpo, com argumento fácil de acompanhar. Profundidade, 7,5: boa síntese de uma tradição, sem esgotar cada tema.
Rigor e fontes, 6,5: poucas evidências e pouco confronto com os argumentos adversários. Atualidade, 7,5: os temas seguem em debate, mas o contexto é britânico. Leitura, 7,5: prazerosa, embora o ritmo ensaístico cobre atenção. A média é 7,6.
Veredito final

Vale a leitura
Nota 7,6 de 10
Para quem é: Quem quer entender o conservadorismo como tradição filosófica, com linguagem de ensaio, antes de passar a obras mais densas como Burke e Tocqueville.
Principal ressalva: Boa parte do argumento é ensaística: faltam dados, estudos empíricos e notas que permitam ao leitor verificar as afirmações.
Ver Como Ser um Conservador na AmazonAnálise detalhada
- Autor
- Roger Scruton
- Editora
- Record
- Ano da edição
- 2015
- Páginas
- 294
- ISBN-10 (ASIN)
- 8501103713
7.6/10
- Clareza · peso 20%
- 9.0
- Profundidade · peso 20%
- 7.5
- Rigor e fontes · peso 20%
- 6.5
- Atualidade · peso 20%
- 7.5
- Leitura · peso 20%
- 7.5
Prós
- Texto elegante e acessível, escrito por filósofo com décadas de obra, que explica uma tradição de pensamento sem exigir leitura prévia
- Apresenta o conservadorismo como atitude diante da herança, das instituições e do lugar onde se vive, e não como lista de bandeiras
- Dialoga com liberais, socialistas e libertários, o que ajuda o leitor a situar cada corrente no debate
Contras
- Boa parte do argumento é ensaística: faltam dados, estudos empíricos e notas que permitam ao leitor verificar as afirmações
- O ponto de vista é o da cultura política britânica; a transposição para o Brasil exige que o leitor faça a ponte por conta própria
- Os críticos apontam que o livro retrata os adversários de forma resumida, sem dar a eles o mesmo espaço que dá às próprias teses
- Ideal para
- Quem quer entender o conservadorismo como tradição filosófica, com linguagem de ensaio, antes de passar a obras mais densas como Burke e Tocqueville.
- Preço
- Preço não verificado: a Amazon Brasil não abriu para conferência em 17/10/2026; confira o valor na página da edição
Resenha editorial baseada na obra, na ficha da edição e em fontes públicasPode conter links de afiliado
Método
Como avaliamos
A nota final é a média simples de cinco critérios, todos com o mesmo peso (20% cada), aplicada com a mesma régua a livros de todos os campos. A nota julga a qualidade da obra, nunca a posição política do autor. Veja a política editorial.
- 9,0
Clareza · peso 20%
O texto se faz entender sem exigir leitura prévia do tema?
- 7,5
Profundidade · peso 20%
O livro vai além do óbvio e sustenta a tese com argumento?
- 6,5
Rigor e fontes · peso 20%
As afirmações têm base em documentos, dados e notas verificáveis?
- 7,5
Atualidade · peso 20%
O conteúdo continua útil para entender o debate de hoje?
- 7,5
Leitura · peso 20%
O ritmo, a edição e a tradução ajudam a chegar ao fim?
- Nota final (média)7,6 / 10
Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
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