O que o Leviatã, de Hobbes, ensina sobre o poder do Estado
Análise editorial do Leviatã, de Thomas Hobbes: a tese do contrato e do soberano, as quatro partes da obra, a edição da Martin Claret, as críticas e a nota.
Análise editorial da obra, da ficha da edição e de fontes públicas
Resumo em 30 segundos
- 01O Leviatã, publicado em 1651 durante a Guerra Civil Inglesa, defende que, sem um poder comum, a vida humana seria uma guerra de todos contra todos, e que as pessoas cedem direitos a um soberano em troca de segurança.
- 02A edição brasileira da Martin Claret, registrada na Open Library com data de dezembro de 2014, traz o título completo, Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil.
- 03A nota 7,6 premia a profundidade e o rigor lógico de uma obra fundadora da teoria do Estado, e desconta a leitura: a prosa do século XVII e as quatro partes, com trechos teológicos longos, exigem esforço.
Neste artigo
Quando se discute quanto poder o Estado deve ter em troca de segurança, a conversa costuma voltar a um livro de 1651. O Leviatã, do filósofo inglês Thomas Hobbes, é uma das obras mais citadas da teoria política e um dos textos de referência para entender o poder. Esta é uma análise editorial da obra, feita a partir da ficha da edição brasileira, de verbetes de enciclopédias e de fontes públicas citadas no texto.
Veredito da redação
É uma leitura exigente e compensadora para quem quer entender a lógica por trás da ideia de soberania. O ponto forte é o encadeamento do argumento: cada passo depende do anterior, e o leitor vê a política sendo construída a partir de premissas explícitas. O ponto fraco é a leitura, pelas frases longas do século XVII e pelas partes dedicadas à teologia.
A nota final é 7,6 em 10. A pontuação avalia a qualidade da obra (clareza, profundidade, rigor, atualidade e leitura), e não concordância com as ideias do autor. A resenha lista as críticas feitas ao livro para que o leitor decida por conta própria.
De que trata e qual é a tese central
Segundo o verbete da Wikipedia sobre a obra, o livro foi publicado na Inglaterra em abril de 1651, com revisão em latim em 1668. O título vem do monstro marinho do Livro de Jó. O autor escreveu durante a Guerra Civil Inglesa, entre 1642 e 1651, e o verbete diz que o conflito moldou a conclusão de que um governo forte e indiviso seria necessário para evitar a guerra civil.
A tese pode ser resumida em quatro movimentos. Primeiro, sem um poder comum que mantenha todos em respeito, a condição natural dos homens é de guerra de todos contra todos. Segundo, para escapar dela, as pessoas concordam em transferir o direito de se governar a um soberano. Terceiro, o poder desse soberano é indivisível. Quarto, o medo da morte violenta é o motivo mais forte para a ordem política. O verbete localiza a famosa descrição da vida no estado de natureza como solitária, pobre, sórdida, brutal e curta no capítulo XIII.
É uma tese que fundamenta o Estado na necessidade de segurança, e não em direito divino nem em tradição. Esse deslocamento explica a influência do livro: ele trata a autoridade como algo a ser justificado por razões que cada indivíduo poderia aceitar.
As quatro partes da obra
De acordo com o mesmo verbete, o livro tem quatro partes. A primeira, Do Homem, trata da natureza humana, da linguagem e das paixões, e apresenta o estado de natureza e as primeiras leis naturais. A segunda, Da República, descreve como o Estado se forma, os direitos do soberano, as três formas de governo (monarquia, aristocracia e democracia), a sucessão, a religião e os impostos.
A terceira parte, De uma República Cristã, argumenta que o soberano civil, e não a Igreja, tem a autoridade final sobre a interpretação das Escrituras e sobre o ensino religioso. A quarta, Do Reino das Trevas, ataca o que o autor via como ignorância espalhada por doutrinas falsas, entre elas leituras equivocadas das Escrituras e a filosofia aristotélica. Quem tem pouco tempo costuma concentrar-se nas partes um e dois, onde está o núcleo político.
Sobre o autor
Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, Hobbes nasceu em Malmesbury, em Wiltshire, em 5 de abril de 1588, estudou em Oxford e trabalhou grande parte da vida para a família Cavendish. Publicou uma tradução de Tucídides em 1629, viveu exilado em Paris entre o fim de 1640 e 1651 e morreu em 4 de dezembro de 1679, em Hardwick Hall.
A enciclopédia observa que o Leviatã começa por temas de filosofia da mente, como os sentidos, a imaginação, a linguagem, a razão e as paixões, e só depois chega à política. É uma pista de leitura: o autor quer derivar a vida política de uma descrição geral do ser humano.
O que o livro faz bem
Argumento encadeado. Poucos textos de teoria política mostram tão bem como uma conclusão decorre de premissas. Mesmo o leitor que rejeita a conclusão consegue apontar em que ponto discorda, e isso torna a obra uma boa escola de pensamento político.
Foco na ordem. O livro obriga a perguntar o que acontece quando o Estado falha, tema que reaparece em discussões sobre segurança pública, guerras civis e Estados frágeis. A relevância não se limita à filosofia: o verbete da Wikipedia registra que a teoria realista de relações internacionais de John Mearsheimer é em grande parte inspirada em Hobbes.
Separação entre autoridade civil e religiosa. A terceira parte discute o lugar da religião sob o poder civil, assunto central na Europa do século XVII e ainda presente em debates sobre Estado laico. Para ver o outro lado do raciocínio, vale ler Dois Tratados sobre o Governo, de John Locke, que também parte do contrato, mas defende um governo limitado, e Reflexões sobre a Revolução na França, de Edmund Burke, que valoriza a tradição e as instituições herdadas.
Limites e críticas feitas à obra
A crítica política mais citada é a da consequência autoritária. Segundo a Wikipedia, o historiador Hugh Trevor-Roper resumiu o livro com um axioma, o medo, um método, a lógica, e uma conclusão, o despotismo. Defensores respondem que Hobbes procura a paz depois de uma guerra civil e que o soberano deve proteger a vida dos súditos, mas o debate sobre os limites do poder soberano segue aberto.
A crítica filosófica veio ainda no século XVII. De acordo com a enciclopédia de Stanford, Descartes objetou ao materialismo de Hobbes, Leibniz o chamou de super-nominalista e Ralph Cudworth atacou o que via como materialismo e ateísmo. O verbete da Wikipedia acrescenta que contemporâneos como Brian Duppa e Alexander Ross elogiaram partes do livro e criticaram outras, e que a imagem de Hobbes como ateu veio em boa medida de seus opositores. A enciclopédia nota que a palavra ateu tinha outro sentido na época e que a questão da fé de Hobbes não está resolvida.
Há ainda a crítica de leitura. As partes três e quatro, longas e carregadas de referências bíblicas, cobram paciência de quem busca apenas a teoria do Estado. A edição brasileira da Martin Claret também não indica, na ficha consultada, se o texto é integral, por isso o leitor deve conferir esse ponto antes de comprar. E a visão pessimista da natureza humana é contestada por quem acha que as sociedades se ordenam também por cooperação, costumes e instituições intermediárias, tema de A Democracia na América, de Tocqueville.
A quem serve e a quem não serve
O livro serve a estudantes de direito, ciência política, filosofia e história, a jornalistas que cobrem segurança e instituições e a leitores que querem a fonte de ideias como soberania, monopólio da força e contrato social. Também ajuda a ler com mais repertório o noticiário sobre o poder, como a cobertura de Notícias sobre decisões de governo e tribunais.
Não serve a quem procura um guia prático de política contemporânea ou uma defesa da democracia liberal: o autor escreveu antes disso. Quem prefere começar por um clássico mais curto pode ler O Príncipe, de Maquiavel, e depois subir ao Leviatã. Quem busca a tradição conservadora moderna pode seguir para A Mentalidade Conservadora, de Russell Kirk.
Edição indicada e preço
A edição indicada é a da Martin Claret, com ISBN 978-85-440-0001-4 (ISBN-10 8544000010), registrada na Open Library com o título Leviatã, ou Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil e data de dezembro de 2014. O número de páginas e o nome do tradutor não constam na ficha consultada e não foram verificados. A página da Amazon Brasil abriu e o título confere com o da ficha. O preço não foi verificado em 21/10/2026. A compra pelo link do site gera comissão, sem custo extra para o leitor.
Livros para ler depois
Depois de Hobbes, o caminho natural é o contraponto de Locke e a tradição do governo limitado. Para a política como ofício e técnica, há Maquiavel, e para a crítica conservadora à abstração, Burke e Scruton, na resenha de Como Ser um Conservador. Todas as análises estão na lista de resenhas.
Nota final e critérios
A nota é a média simples de cinco critérios, aplicados com a mesma régua a livros de todos os campos. Clareza, 6,5: o argumento é nítido, a prosa é antiga. Profundidade, 9,5: constrói uma teoria completa do Estado a partir da natureza humana.
Rigor e fontes, 8,5: lógica cerrada, com as limitações de uma obra do século XVII. Atualidade, 8,0: os temas de segurança e soberania seguem em debate. Leitura, 5,5: longa e densa, com trechos teológicos extensos. A média é 7,6.
Veredito final

Vale a leitura
Nota 7,6 de 10
Para quem é: Quem quer ler a origem da ideia de que a ordem política nasce do medo da violência e entender por que o debate sobre segurança e liberdade volta sempre a Hobbes.
Principal ressalva: A defesa de um soberano de poder indivisível é criticada por abrir caminho ao despotismo e dar pouca proteção ao indivíduo.
Ver o Leviatã na AmazonAnálise detalhada
- Autor
- Thomas Hobbes
- Editora
- Martin Claret
- Ano da edição
- 2014
- ISBN-10 (ASIN)
- 8544000010
7.6/10
- Clareza · peso 20%
- 6.5
- Profundidade · peso 20%
- 9.5
- Rigor e fontes · peso 20%
- 8.5
- Atualidade · peso 20%
- 8.0
- Leitura · peso 20%
- 5.5
Prós
- Obra fundadora da teoria moderna do Estado, com um argumento encadeado do que é o ser humano até o que justifica a autoridade
- Estrutura em quatro partes que permite ler a política separada da psicologia e da religião, se o leitor preferir
- Segue influente em debates sobre segurança, ordem e limites da liberdade, inclusive em teorias de relações internacionais
Contras
- A defesa de um soberano de poder indivisível é criticada por abrir caminho ao despotismo e dar pouca proteção ao indivíduo
- A prosa do século XVII e as partes teológicas, longas, tornam a leitura mais lenta que a de ensaios políticos modernos
- O pessimismo sobre a natureza humana é discutido: críticos acham que ele subestima a cooperação espontânea e as instituições intermediárias
- Ideal para
- Quem quer ler a origem da ideia de que a ordem política nasce do medo da violência e entender por que o debate sobre segurança e liberdade volta sempre a Hobbes.
- Preço
- Preço não verificado em 21/10/2026; confira o valor e se a edição é integral ou resumida na página da Amazon antes de comprar
Resenha editorial baseada na obra, na ficha da edição e em fontes públicasPode conter links de afiliado
Método
Como avaliamos
A nota final é a média simples de cinco critérios, todos com o mesmo peso (20% cada), aplicada com a mesma régua a livros de todos os campos. A nota julga a qualidade da obra, nunca a posição política do autor. Veja a política editorial.
- 6,5
Clareza · peso 20%
O texto se faz entender sem exigir leitura prévia do tema?
- 9,5
Profundidade · peso 20%
O livro vai além do óbvio e sustenta a tese com argumento?
- 8,5
Rigor e fontes · peso 20%
As afirmações têm base em documentos, dados e notas verificáveis?
- 8,0
Atualidade · peso 20%
O conteúdo continua útil para entender o debate de hoje?
- 5,5
Leitura · peso 20%
O ritmo, a edição e a tradução ajudam a chegar ao fim?
- Nota final (média)7,6 / 10
Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
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