O Chamado da Tribo: o que Vargas Llosa aprendeu com sete liberais
Análise editorial de O Chamado da Tribo, de Mario Vargas Llosa: os sete pensadores liberais, a tese, as críticas feitas ao livro, a edição da Objetiva e a nota final.
Análise editorial da obra, da ficha da edição e de fontes públicas
Resumo em 30 segundos
- 01O Chamado da Tribo é um ensaio em que Mario Vargas Llosa apresenta sete pensadores que moldaram suas ideias liberais ao longo de cinco décadas: Adam Smith, Ortega y Gasset, Hayek, Popper, Aron, Berlin e Revel.
- 02Segundo a editora, a obra nasce do afastamento do autor da Revolução Cubana e de Jean-Paul Sartre, e defende o indivíduo e a liberdade de expressão diante dos grupos coletivos, o que é a leitura do próprio Vargas Llosa.
- 03A nota 7,5 premia a clareza e a leitura fluida e desconta a profundidade e o rigor de um ensaio de divulgação, que é também uma biografia intelectual e recebeu resposta crítica de Atilio Borón.
Neste artigo
Poucos romancistas contemporâneos escreveram tanto sobre política quanto Mario Vargas Llosa, e poucos mudaram tanto de posição ao longo da vida. Em O Chamado da Tribo, ele reúne num ensaio os pensadores que, nas suas palavras de apresentação, o ajudaram a passar do entusiasmo pela esquerda ao liberalismo. Esta é uma análise editorial a partir da ficha da edição, de catálogos e de resenhas públicas citadas, sem leitura pessoal da obra.
Veredito da redação
O livro funciona bem como um mapa de leitura do liberalismo, contado por um escritor que viveu o debate político latino-americano de perto. Quem procura um estudo acadêmico sobre cada pensador, ou uma visão neutra do liberalismo, vai encontrar uma seleção pessoal e a exposição de um ponto de vista.
A nota final é 7,5 em 10. Ela avalia a qualidade da obra (clareza, profundidade, rigor, atualidade e leitura), e não a posição política do autor, com a mesma régua usada para livros de outros campos. As críticas feitas ao livro estão listadas adiante.
De que trata e qual é a tese central
Segundo a ficha da edição, o livro é um ensaio autobiográfico em que o Nobel de Literatura apresenta sete pensadores liberais que moldaram suas ideias nos últimos cinquenta anos. A sinopse liga a escolha ao afastamento do autor da Revolução Cubana e de Jean-Paul Sartre. Os sete são Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich Hayek, Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel.
A obra foi publicada em espanhol em 2018, com o título La llamada de la tribu, e a edição brasileira saiu em junho de 2019 pela Objetiva, com tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, segundo a editora. Segundo a sinopse, a defesa do indivíduo e da liberdade de expressão diante dos grupos coletivos é a linha que une os capítulos.
Em resenha publicada no jornal argentino La Nación, em 29 de abril de 2018, Enrique Aguilar descreve a tese como a de um liberalismo entendido como atitude diante da vida e da sociedade, feita de tolerância, respeito e convivência com o outro, em que a liberdade é o valor supremo. É a leitura de um resenhista simpático ao livro, registrada aqui como tal.
Sobre o autor
De acordo com a Wikipédia, Mario Vargas Llosa nasceu em Arequipa, no Peru, em 28 de março de 1936, e morreu em Lima em 13 de abril de 2025, aos 89 anos. Recebeu o Nobel de Literatura em 2010 e foi candidato à Presidência do Peru em 1990, pela coalizão liberal de direita Fredemo: venceu o primeiro turno e perdeu o segundo para Alberto Fujimori.
A mesma fonte registra que ele simpatizou com o socialismo e admirou Fidel Castro e a Revolução Cubana na juventude, e que mudou de posição depois de críticas à censura a escritores cubanos e à invasão da Checoslováquia. Esse percurso é o pano de fundo do livro. O site tem a resenha de um dos livros de um dos sete autores, O Ópio dos Intelectuais, de Raymond Aron, um dos sete autores do ensaio.
Os sete pensadores, segundo a resenha de La Nación
Segundo Aguilar, Popper aparece pela defesa da crítica racional como forma de liberdade e como proteção contra a opressão. Hayek, Aron, Berlin e Revel surgem unidos pela crítica racional, pela originalidade intelectual e pelo enfrentamento das grandes correntes ideológicas. De Berlin, o resenhista destaca o pluralismo, com a imagem da raposa e do ouriço.
Adam Smith é apresentado, ainda de acordo com o artigo, a partir de aspectos pouco lembrados, como a sensibilidade diante da pobreza, o papel do Estado em obras públicas e educação e as críticas aos empresários. Ortega y Gasset surge como um dos grandes pensadores laicos e democráticos da Espanha, pela prosa, pelo europeísmo e pela rejeição ao nacionalismo.
Quem quiser ler os autores citados encontra no site resenhas de A Riqueza das Nações, de Adam Smith, de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, e de O Caminho da Servidão e A Constituição da Liberdade, de Hayek.
O que o livro faz bem
Voz de escritor. Segundo a sinopse, o livro é um ensaio autobiográfico, e essa moldura de história de formação torna a leitura mais leve do que a de um manual. Para o leitor que acha tratados de filosofia política áridos, a estrutura de sete retratos facilita a entrada.
Mapa de leitura. O ensaio funciona como lista guiada. Quem termina o capítulo sobre Popper ou sobre Berlin sai com vontade de abrir o original, e o livro cumpre bem a função de ponte entre o leitor comum e autores de peso.
Moldura biográfica. Segundo a sinopse, a escolha dos pensadores parte do afastamento do autor da Revolução Cubana e de Sartre, o que dá ao leitor uma chave para entender a seleção. Ao apresentar o liberalismo como percurso pessoal, o texto torna o argumento mais fácil de avaliar.
Limites e críticas feitas à obra
A primeira ressalva é de gênero literário. O livro é um ensaio de afinidade, não um estudo sobre cada pensador, e o leitor interessado em um deles precisará de bibliografia especializada. A resenha de La Nación citada acima é elogiosa e não aponta falhas, e por isso a redação procurou também a resposta crítica.
A mais conhecida é a do sociólogo argentino Atilio Borón, que publicou em 2019 o livro El hechicero de la tribu: Mario Vargas Llosa y el liberalismo en América Latina. Segundo reportagens e resenhas sobre a obra, Borón responde ao ensaio de Vargas Llosa examinando, autor por autor, os pensadores liberais que o escritor cita. É uma crítica de campo oposto ao do livro, e a redação a registra como a principal resposta publicada, sem endossá-la nem rebatê-la.
A segunda ressalva é de seleção, e pode ser conferida na própria lista. São sete autores, todos homens e todos europeus, e o livro não discute pensadores latino-americanos, embora o autor tenha construído sua carreira política e literária na América Latina. Para o leitor brasileiro, o resumo da história do liberalismo brasileiro, de Antônio Paim, ajuda a completar o quadro.
A terceira é de equilíbrio. O livro defende o liberalismo, como mostram a sinopse e as resenhas, e o leitor não encontrará dentro dele o contraditório de outras tradições. A redação aplica a mesma régua a obras de outros campos: o que importa é separar a exposição das ideias, que o livro faz com clareza, da avaliação delas, que cabe ao leitor.
Como ler o liberalismo sem torcida
Um ensaio que reúne sete autores favoritos pede, como qualquer outro, a conferência nas fontes. O leitor que abre O Chamado da Tribo faz bem em ler ao menos um dos autores no texto original e, em paralelo, um crítico, para comparar. A resenha de Sobre a Liberdade, de Stuart Mill, mostra outro caminho do liberalismo, e Como as Democracias Morrem traz uma discussão contemporânea sobre instituições.
Para o contexto brasileiro, o site acompanha o noticiário político e econômico e tem uma seção de História, que conta a política do país de trás para frente. Livros de ideias servem melhor quando o leitor os confronta com o que acontece nas instituições, e a redação procura sempre mostrar os fatos antes das interpretações.
A quem serve e a quem não serve
O livro serve a leitores de política e de literatura, a estudantes que querem uma introdução ao liberalismo clássico e ao liberalismo do século XX, e a quem acompanha a obra de Vargas Llosa e quer entender o autor. Serve também a quem discorda e quer conhecer, em texto acessível, a leitura que um dos mais conhecidos escritores de língua espanhola fazia do tema.
Não serve a quem busca um estudo exaustivo de cada pensador, uma história neutra do liberalismo ou uma discussão aprofundada de políticas públicas. Para a crítica à intelectualidade, Os Intelectuais e a Sociedade, de Thomas Sowell, oferece outra tradição liberal.
Edição indicada e preço
A edição conferida é a da Objetiva, selo da Companhia das Letras, ISBN 978-85-470-0087-5 (ISBN-10 8547000879), com 216 páginas e data de lançamento de 13 de junho de 2019, segundo a ficha da editora. A tradução é de Paulina Wacht e Ari Roitman. Uma loja citou 214 páginas para um ISBN diferente, o que indica outra tiragem, e as edições em espanhol têm cerca de 320 páginas e são outro livro.
A página da Amazon Brasil bloqueou a leitura automática na consulta de 06/11/2026, e por isso o preço não foi confirmado e o link do botão leva à busca pelo ISBN-13, e não à página do livro. A foto exibida vem do catálogo da Open Library, e não da Amazon. A compra pelo link gera comissão para o site, sem custo extra ao leitor.
Livros para ler depois
Para seguir a trilha, vale conferir O Fim da História, de Francis Fukuyama, e a lista completa de resenhas.
Nota final e critérios
A nota é a média simples de cinco critérios. Clareza, 8,5: a linguagem de ensaísta é direta e acessível. Profundidade, 6,5: sete retratos num volume de 216 páginas não esgotam nenhum dos autores. Rigor e fontes, 6,5: o texto é de afinidade pessoal e não de pesquisa acadêmica.
Atualidade, 7,5: o debate entre indivíduo e coletivo segue vivo, embora o livro seja de 2018. Leitura, 8,5: é curto e flui bem. A média é 7,5.
Veredito final

Vale a leitura
Nota 7,5 de 10
Para quem é: Quem quer conhecer, em linguagem de ensaísta, os autores que formaram o liberalismo de Vargas Llosa e escolher por onde começar a ler cada um deles.
Principal ressalva: É um ensaio de divulgação e de afinidade eletiva, sem o aparato de notas e o debate acadêmico que um estudo sobre cada autor exigiria.
Ver O Chamado da Tribo na AmazonAnálise detalhada
- Autor
- Mario Vargas Llosa
- Editora
- Objetiva
- Ano da edição
- 2019
- Páginas
- 216
- ISBN-10 (ASIN)
- 8547000879
7.5/10
- Clareza · peso 20%
- 8.5
- Profundidade · peso 20%
- 6.5
- Rigor e fontes · peso 20%
- 6.5
- Atualidade · peso 20%
- 7.5
- Leitura · peso 20%
- 8.5
Prós
- Apresenta, num único volume curto, sete autores centrais do liberalismo do século XX e de seus precursores, com a voz de um escritor e não de um manual
- Mostra o percurso intelectual do próprio autor, do entusiasmo pela Revolução Cubana à defesa do liberalismo, o que ajuda a entender a escolha dos pensadores
- Boa porta de entrada para quem vai ler depois Hayek, Popper, Aron ou Berlin no original, com uma lista de leituras já organizada
Contras
- É um ensaio de divulgação e de afinidade eletiva, sem o aparato de notas e o debate acadêmico que um estudo sobre cada autor exigiria
- A seleção é a do autor: sete homens, todos europeus, e nenhum pensador latino-americano entre os sete
- Recebeu resposta crítica, entre elas o livro de Atilio Borón, que discute autor por autor a leitura que Vargas Llosa faz do liberalismo
- Ideal para
- Quem quer conhecer, em linguagem de ensaísta, os autores que formaram o liberalismo de Vargas Llosa e escolher por onde começar a ler cada um deles.
- Preço
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Resenha editorial baseada na obra, na ficha da edição e em fontes públicasPode conter links de afiliado
Método
Como avaliamos
A nota final é a média simples de cinco critérios, todos com o mesmo peso (20% cada), aplicada com a mesma régua a livros de todos os campos. A nota julga a qualidade da obra, nunca a posição política do autor. Veja a política editorial.
- 8,5
Clareza · peso 20%
O texto se faz entender sem exigir leitura prévia do tema?
- 6,5
Profundidade · peso 20%
O livro vai além do óbvio e sustenta a tese com argumento?
- 6,5
Rigor e fontes · peso 20%
As afirmações têm base em documentos, dados e notas verificáveis?
- 7,5
Atualidade · peso 20%
O conteúdo continua útil para entender o debate de hoje?
- 8,5
Leitura · peso 20%
O ritmo, a edição e a tradução ajudam a chegar ao fim?
- Nota final (média)7,5 / 10
Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
A equipe da Política Diária escreve para quem quer entender a política brasileira e internacional sem torcida. Cada texto parte de fontes primárias (Diário Oficial, Câmara, Senado, STF, TSE, organismos internacionais e veículos de imprensa identificados) e é escrito em português claro, separando fato de opinião.