Audiência no Senado discute tarifaço dos EUA e as terras-raras do Brasil
Comissão de Meio Ambiente ouviu pesquisadores e o governo sobre as tarifas americanas, que atingem 47,3% das exportações ao mercado dos EUA, e sobre minerais críticos.

A Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado realizou na quinta-feira (22) uma audiência pública sobre os efeitos das tarifas dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros e sobre o potencial e os riscos das terras-raras. Segundo a Agência Senado, o debate foi pedido pelos requerimentos 20 e 21 de 2026 da comissão e conduzido pela senadora Leany Lemos (PSB-DF), que presidia a CMA de forma interina.
A reportagem informa que 47,3% das exportações brasileiras para os Estados Unidos enfrentam sobretaxas de até 37,5%, que não existiam em 2024. O governo brasileiro estima em US$ 19,1 bilhões o valor das vendas afetadas. A Agência Senado data o início das tarifas em março de 2025, com alíquotas específicas que chegaram a 50% quando as taxas mais altas foram anunciadas, em julho de 2025, e registra uma nova tarifa de 25% sobre diversos produtos a partir de julho de 2026.
O que disseram os participantes
Leany Lemos afirmou que o governo de Donald Trump usa a política comercial como arma a serviço dos interesses americanos e que os Estados Unidos enxergam o Brasil como o seu "quintal". Para ela, o tema é de soberania nacional. A afirmação é da senadora, e a reportagem não traz resposta da Casa Branca.
O pesquisador do Ipea e da Universidade de Brasília Renato Baumann disse que as tarifas buscam forçar negociações que tragam mais investimento para os Estados Unidos. Ele argumentou que o Brasil tem déficit comercial com os americanos desde 2008, o que, em sua avaliação, enfraquece a justificativa aplicada ao caso brasileiro, e classificou as medidas como eleitorais, ideológicas e imprevisíveis.
O secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Territorial Ambiental, André Rodolfo de Lima, que, segundo a reportagem, representou o Ministério do Meio Ambiente, chamou de "grande falácia" a justificativa americana para a tarifa adicional de 25%. Ele afirmou que o desmatamento na Amazônia caiu 75,4% entre 2022 e 2026 e atribuiu o resultado, em parte, à adesão de 80 municípios a um programa federal financiado pelo Fundo Amazônia. O número é da fonte do governo, e a Agência Senado não o confirma de forma independente.
Também participaram Herlon Brandão, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Fabrizio Panzini, da Amcham Brasil, e Roberto Furian Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis. A reportagem não registra as posições deles, e este texto não atribui falas a esses participantes.
Terras-raras e minerais críticos
A segunda parte do debate tratou de minerais críticos. A pesquisadora Luíza Gimenez Cerioli, doutora em ciência política, disse que lítio, cobre, níquel, grafite, cobalto e terras-raras sustentam as transições digital, energética e de defesa e espaço. Segundo ela, a China domina grande parte do processamento desses materiais, e o resultado é uma "geopolitização" do tema, em que questões comerciais se tornam questões de segurança.
Cerioli alertou que o processamento consome muita energia e água e polui, e defendeu foco no mercado interno, salvaguardas ambientais e redução da desigualdade. O professor da USP Fernando Landgraf propôs que o Brasil instale uma fábrica de ímãs em vez de apenas exportar terras-raras em estado bruto. Para ele, são necessárias política nacional e investimento estrangeiro, o retorno levaria cerca de dez anos e poucas fábricas de ímãs existem fora da China.
A Agência Senado registra que o Brasil tem a segunda maior reserva de terras-raras do mundo, atrás da China. Landgraf citou a Política Nacional de Minerais Críticos, sancionada, segundo a reportagem, no mês passado, como marco legal para essa estratégia. O texto da lei e seus detalhes não foram discutidos na reportagem, e este texto não os descreve.
Contexto: como o tarifaço chegou à pauta política
As tarifas americanas sobre produtos brasileiros já motivaram medidas do governo federal para amparar exportadores. A mais recente foi a Medida Provisória 1.397, que abriu crédito extraordinário de R$ 6,49 bilhões, como mostra a notícia sobre o crédito para exportadores do Plano Brasil Soberano. O tema também aparece na relação diplomática com vizinhos, como no caso das falas do presidente argentino, tratadas na notícia sobre a nota do Itamaraty.
No Senado, a audiência não votou projeto nem produziu resolução. Segundo a reportagem, não foram anunciados encaminhamentos, e o conteúdo completo da sessão está disponível no portal e-Cidadania, sob o número 40910. Audiências desse tipo servem para reunir subsídios técnicos que podem orientar projetos e requerimentos futuros, mas não geram efeito jurídico por si.
Por que isso importa
Para o leitor, a audiência mostra como o debate sobre o comércio com os Estados Unidos se divide em dois eixos. O primeiro é imediato: sobretaxas que, segundo o governo, atingem US$ 19,1 bilhões em exportações, com efeito sobre empresas, empregos e arrecadação nos setores expostos. O segundo é de longo prazo: a decisão de como o Brasil vai explorar minerais críticos, em que ponto da cadeia produtiva quer entrar e com que regras ambientais.
Há divergência de leitura sobre a origem das tarifas e sobre a resposta adequada. Entre os participantes citados na reportagem, Baumann classificou as medidas como eleitorais e ideológicas, e o representante do governo contestou a justificativa ambiental. A reportagem não traz a posição do governo americano nem a de quem defende as tarifas, e por isso o debate aqui descrito é um recorte da audiência, não um balanço completo da controvérsia.
No campo dos minerais, a discussão tem uma tensão que o próprio debate expôs: atrair investimento para beneficiar o minério no país, como propôs Landgraf, exige tempo e capital, enquanto Cerioli lembra que a atividade pesa sobre energia, água e meio ambiente. O desenho final depende de regulamentação, de decisões do Executivo e de eventuais projetos no Congresso, ainda sem calendário informado.
O que observar nos próximos dias
O foco do noticiário político nos próximos dias será o segundo turno de domingo (25), e o tema do comércio exterior costuma voltar à pauta com o novo governo ou a continuidade do atual a partir de janeiro. O painel de Eleições 2026 reúne os dados oficiais do TSE e as pesquisas do segundo turno.
No Congresso, é possível que o tema volte em comissões, a depender de requerimentos e da agenda do período pós-eleitoral. Até lá, o registro oficial da audiência no e-Cidadania permite conferir, em vídeo, o que cada participante disse. Para quem acompanha a política externa em perspectiva histórica, a resenha de Ordem Mundial, de Henry Kissinger, trata do equilíbrio de poder entre as grandes potências.
Fonte original
Agência Senado
www12.senado.leg.br
Perguntas frequentes
Quem escreveu
Equipe Política Diária
Redação da Política Diária
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