Política Diária

Digite para buscar em todos os artigos e notícias.

Política Diária
Notícia

PGR apoia quebra de sigilo da fonte de jornalista que citou carros de Dino

Gonet defendeu decisão de Moraes sobre o jornalista Luís Pablo, do Maranhão. A defesa e entidades de imprensa contestam; a PF não viu crime de violação de sigilo.

Foto de Equipe Política DiáriaEquipe Política Diáriavia Política Diária
PGR apoia quebra de sigilo da fonte de jornalista que citou carros de Dino
Foto: Jorge Luiz Castro (CC BY-SA 4.0) / Wikimedia Commons

A Procuradoria-Geral da República (PGR), chefiada por Paulo Gonet, manifestou-se a favor de uma decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que quebrou o sigilo da fonte do jornalista maranhense Luís Pablo Almeida. Segundo a CNN Brasil, o jornalista publicou reportagens sobre o suposto uso indevido de carros oficiais pelo ministro Flávio Dino e por familiares dele no Maranhão. O parecer da PGR veio a público na semana passada e responde a um pedido da defesa para anular e arquivar a investigação.

O caso está ligado ao inquérito das fake news, aberto pelo STF em 2019. De acordo com a CNN Brasil, a decisão de Moraes é de 23 de outubro, e em março o ministro já havia mandado apreender telefones e notebooks na casa do jornalista. A Agenda do Poder descreve a mesma sequência e informa que o parecer da PGR foi assinado no dia 23. Os veículos divergem em detalhes de calendário, e o conteúdo dos autos não é público. Por isso, este texto se limita ao que as reportagens atribuem a cada parte.

O que diz a PGR

Gonet reconhece que a Constituição protege o sigilo da fonte, mas sustenta que essa proteção não se aplica ao caso. Segundo a CNN Brasil, o parecer se apoia no artigo 43 do Regimento Interno do STF, que trata do poder de polícia da Corte em infrações penais que afetam a sua esfera institucional. O procurador-geral afirma que a obtenção e a circulação dos dados dos veículos poderiam pôr em risco a integridade física de um integrante do tribunal.

O parecer defende que os procedimentos continuem sob supervisão do STF pelo tempo necessário para verificar a extensão desse risco. Gonet também registra que a intervenção judicial permanece possível quando houver exercício abusivo do direito de informar. Para a PGR, rastrear o caminho da informação ajudaria a esclarecer se houve algum arranjo financeiro para obter ou divulgar dados reservados.

O raciocínio de Moraes, conforme a mesma reportagem, é parecido: o conteúdo publicado sugeriria que o autor usou algum mecanismo estatal para identificar os veículos, o que poderia expor a segurança das autoridades. A decisão também determinou uma busca contra o ex-secretário estadual Raimundo Cutrim, apontado pela investigação como possível fonte. Cutrim está preso em outro processo, acusado de obstruir uma investigação de homicídio envolvendo um parente, e nega a acusação. A CNN Brasil informa que não conseguiu contato com os advogados dele.

O que diz a defesa e o que a Polícia Federal apurou

Os advogados do jornalista afirmam que a conduta investigada é atípica, isto é, não configura crime, e que os dados foram obtidos e usados com violação do sigilo da fonte. Argumentam que reportar sobre um bem público não demonstra perseguição ao ministro e lembram que o jornalista tem direito de não revelar como obteve a informação. Pedem a proteção das comunicações com fontes e com advogados, o arquivamento definitivo da investigação e, se ela continuar, a remessa para a primeira instância, já que o jornalista não tem foro privilegiado.

Há um ponto da investigação que aparece de forma diferente nos relatos. A CNN Brasil escreve que o jornalista é acusado de cobrar R$ 100 mil para publicar as reportagens. A Agenda do Poder, por sua vez, afirma que a Polícia Federal examinou um repasse de R$ 100 mil de um advogado ao jornalista e que, segundo o relatório policial, o dinheiro não foi pago para produzir reportagens sobre Dino, e sim usado na compra de um imóvel rural. As duas reportagens concordam que o relatório da PF não encontrou prova de violação de sigilo funcional pelo jornalista e que não foi possível afirmar, "com máxima certeza", que ele recebeu dinheiro para publicar. Acusação não é condenação, e nenhuma decisão de mérito foi tomada.

O ministro Dino, por sua vez, nega irregularidades no uso do veículo e apresentou representação por suposta perseguição de adversários políticos no Maranhão, segundo a Agenda do Poder. O caso foi inicialmente distribuído ao ministro Cristiano Zanin e, após parecer de Gonet e decisão do presidente do STF, Edson Fachin, passou a Moraes, de acordo com a mesma publicação.

Contexto: o que a Constituição diz sobre o sigilo da fonte

O artigo 5º, inciso XIV, da Constituição de 1988 assegura a todos o acesso à informação e resguarda o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. A garantia é uma das bases do jornalismo investigativo, porque permite que alguém passe uma informação sem ser identificado. O texto constitucional condiciona a garantia à necessidade para o exercício profissional, e a extensão dela em cada caso é objeto de disputa jurídica.

É essa fronteira que está em debate. De um lado, a PGR e o relator tratam a possibilidade de uso de um sistema estatal e o risco à segurança de um ministro como motivos para investigar o caminho da informação. De outro, a defesa e entidades de imprensa argumentam que a reportagem tratou de um veículo público em via pública e que identificar a fonte atinge a atividade jornalística. Segundo O Antagonista, a Abraji condenou as medidas, e a Fenaj e o Sindicato dos Jornalistas do Maranhão divulgaram nota conjunta em que temem um precedente contra o trabalho da imprensa.

Outro elemento do debate é a competência. A PGR sustenta que o STF pode conduzir o caso por se tratar de fato que, na sua avaliação, afeta a esfera institucional da Corte, embora o jornalista não tenha foro privilegiado. A defesa pede o contrário. Sobre o funcionamento interno do tribunal, o site publicou a notícia sobre a triagem de petições.

Por que isso importa

O primeiro efeito é concreto para o processo. Com o parecer favorável da PGR, a investigação segue no STF sob a relatoria de Moraes, e a defesa terá de insistir nos pedidos de arquivamento e de envio à primeira instância. Cabe ao relator decidir sobre esses pedidos, e a decisão pode ser levada ao plenário por recurso.

O segundo efeito é institucional. O caso reúne duas questões: o alcance do inquérito das fake news e a proteção da atividade jornalística. Quem defende a quebra de sigilo cita a segurança de uma autoridade; quem a critica cita o risco de que o jornalista seja identificado por publicar informação de interesse público. Uma decisão do plenário sobre o assunto serviria de referência para casos futuros.

O terceiro ponto é o contexto. O ministro Dino, personagem das reportagens, também aparece em outra notícia recente, a da decisão que mandou a PF apurar suposta interferência estrangeira na eleição. Ao mesmo tempo, o tribunal funciona hoje com dez ministros, como registra o texto sobre um ano sem a vaga de Barroso preenchida, o que pesa em qualquer julgamento de plenário. Nenhuma dessas informações altera os fatos acima, mas ajuda a situar quem decide e como.

O que observar a seguir

Três pontos definem os próximos passos. O primeiro é se Moraes responde à petição da defesa e aos pedidos das entidades de imprensa, e se mantém o caso no STF. O segundo é se algum recurso leva a discussão ao plenário ou a uma das turmas do tribunal. O terceiro é se a investigação identifica, com provas, quem foi a fonte e como a informação circulou, hipótese que hoje é da apuração e não uma conclusão confirmada.

Outras decisões recentes do tribunal estão reunidas na cobertura sobre o plenário virtual até 10 de novembro e sobre a posição da PGR em outro caso, o do acesso a registros de visitas ao Senado. O Política Diária atualiza este texto se houver decisão nos autos.

Fonte original

CNN Brasil

cnnbrasil.com.br

Ler na fonte original

Perguntas frequentes

Segundo a CNN Brasil, Paulo Gonet apoiou a decisão de Alexandre de Moraes que quebrou o sigilo da fonte do jornalista Luís Pablo Almeida. Para a PGR, a proteção constitucional não se aplica ao caso e é preciso rastrear a informação para avaliar risco à segurança de um ministro. A defesa contesta, e não há decisão de mérito.
Foto de Equipe Política Diária

Quem escreveu

Equipe Política Diária

Redação da Política Diária

A equipe da Política Diária escreve para quem quer entender a política brasileira e internacional sem torcida. Cada texto parte de fontes primárias (Diário Oficial, Câmara, Senado, STF, TSE, organismos internacionais e veículos de imprensa identificados) e é escrito em português claro, separando fato de opinião.

Últimas

Mais notícias

Todas as notícias →